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Release “Motor” por Rodrigo Campos

Gasolina e Motor


Ouvi o disco do Cabral algumas vezes. A cada nova audição algo novo se revelou. Há, sem dúvida, muita riqueza ali: um manancial de elementos poéticos e musicais que eu poderia tentar elencar e descrever, um a um, sem encontrar de fato um fim. Mas notei que o que sempre volta, ou se repete, o que se impõe dolorosamente é uma reflexão sobre o amor. E aí encontro meu mote (também uma maneira de driblar esse moto-contínuo da descrição de influências, por vezes entediante e que me interessa menos numa obra de arte). Dito isso, o que mais me chama a atenção no amor em “Motor” é sua impossibilidade de realização. Se imaginarmos uma personagem fictícia que vagueie pelas canções do disco, é possível narrar a saga dessa figura: alguém que se investe dessa aura romântica e sai mundo afora numa jornada em busca do amor. Não obstante, é conclusivo que esse cavaleiro andante desconfie da fantasia de sua condição e isso não seja um grande problema. Nessa jornada, ele se transfigura, realiza a impossibilidade de amar em diversas formas: como bufão em “Ela riu”, como animal ferido em “Cadê” ou como otimista em “Tudo é coração”. Em “Sol de Carvão” os olhos pretos do ser amado são a metáfora do fim do mundo, quando na iminência do adeus. E em “Ciclovia” temos o desejo que é freado numa pulsão de morte diametralmente oposta à leveza da imagem que desperta tal sentimento. Mas o que interessa é que em nenhuma dessas canções (ou em outras do disco) o amor está acontecendo linearmente, como o almejado. Ele já passou, está passando, passará ou nunca se passará. E a ironia é que o cavaleiro andante, desde o princípio, carregou consigo esse paradoxo em sua jornada, mas nem por isso deixou de empreendê-la: o amor em seu estado mais romântico, ou seja, aquele que se interrompe ou não se consuma, é a única gasolina que queima incessantemente.
 

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